2008 MÉXICO.

2008 Chi´Ch´èen Ìitsha, Yucatán, MÉXICO.

NA BOCA DO POÇO DOS ITZÁ.

México. Península do Yucatán. Manhã, quase tarde, de um escaldante dia 19 de Agosto do ano de 2008. Eu, a Ana e a Andreia, mais um pequeno grupo de caminhantes espanhóis, embrenhamo-nos pela luxuriante selva mexicana do Yucatán em busca do Panteão dos Deuses Maias. K´inich Ajaw, o Sol, tortura-nos de sede. Não há uma brisa fresca. O Município de Kahua e o seu mercado de artesanato Maya há muito que ficaram para trás. Raios! Não corre mesmo uma brisa fresca. O suor corre em bica pela testa fazendo uma comichão danada por todo o corpo. Os lábios estão áridos e a minha língua tenta evitar a sua erosão. A caminhada faz-se lenta. Mais lenta que as palavras de Arturo, chamemos-lhe só assim ao nosso guia para preservar a sua identidade, que nos fala de lendas sobre a origem da palavra Yucatán. A sua voz grave e roufenha parece a sonoridade de uma liturgia Maya saída do Popol Vuh, o livro sagrado da comunidade Maya. Diz-nos pois que a origem da palavra Yucatán deriva desde a palavra maia uh yu ka t’ann até à corrompida palavra espanhola Tectetán e é só escolher a lenda que mais nos agradar. Esta pequena expedição empreendida à selva do Yucatán vem de encontro ao nosso objectivo de tentarmos perceber um pouco mais das civilizações perdidas do nosso passado. O passado é fundamental. Não para habitar à sua sombra mas sim para o perceber. Para descodificarmos o presente e lançar o futuro com raízes sólidas. Arturo, ofegante, camisa branca colada ao corpo, escorrendo água pelas feições faciais mayas abaixo, anuncia a primeira maravilha da selva rasteira do Yucatán: o cenote de Xtoloc. Em Maya diz-se “ts´ono´ot”, ou caverna com água, como diz Arturo, é uma palavra que tem origem no dialecto do povo Maya do Yucatán e que chegou aos nossos dias como cenote. São pequenos reservatórios subterrâneos de água doce proveniente da filtragem das águas das chuvas no subsolo do Yucatán. Ainda sem o vermos e com passo impaciente e de mão trémula, retiro do meu caminho a volumosa vegetação rasteira que me pica as pernas a todo o momento e que me separa da nossa procura. As pernas parecem chumbo. Enquanto isso a Ana e a Andreia entretêm-se a brincar com a fauna e a flora indígena. A Andreia tira fotografias a grandes iguanas, umas verdes, outras castanhas, de grande cauda, que têm mais medo de nós que nós delas. A Ana quer ir “ali” apanhar uns Maracujás, ou se calhar não. Talvez umas Pitayas que mais se assemelham a uns figos de catos. Distraído, de repente finco os pés no chão para não cair lá em baixo nas águas sagradas do cenote. A Céu aberto eis pois o cenote de Xtoloc. Xtoloc, em Maya, quer dizer iguana. Ou seja: este reservatório natural das águas das chuvas, existentes aos milhares por toda a placa do Yucatán, alguns a céu aberto, outros semiabertos, subterrâneos ou em cavernas, de onde os Mayas retiravam toda a sua água potável, chama-se, sem mais nem menos, o reservatório de água da Iguana. Ou, vá lá, a Caverna da Água da Iguana. Arturo pede para continuarmos para não perdermos o melhor do próximo espectáculo. Um Gaio do Yucatán, todo pintalgado de um azulão impossível, misturado com listas pretas como a noite, voa em espiral por cima das nossas cabeças indo para parte incerta. A Ana chama-me á atenção para um Tucano pousado num ramo frágil a quase meio metro das nossas cabeças. Arturo diz para não assustarmos. Seguimos. A selva é tão densa que se der dois ou três passos para me afastar de Arturo fico logo desorientado sem saber para que lado ir. Eis finalmente uma clareira….Finalmente o nosso El Dorado: estamos na Boca do Poço do povo Itzá. Ou, se preferirem, em idioma Maya, Chichen Itzá.

Foto nº 0289, da viagem 2008 México, 2008-08-19, T, Cidade Maia Chichén Itzá, Chichén Itzá, Yucatão, México.

Foto nº 0289, da viagem 2008 México, 2008-08-19, T, Cidade Maia Chichén Itzá, Chichén Itzá, Yucatão, México.

Património da Humanidade declarada pela UNESCO e recentemente eleita uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Chichen Itzá: a maior e mais famosa urbe do mundo Maya que em melhor estado de conservação chegou aos nossos dias. Ainda ofegante e com passos vigorosos, o guia mostra-nos todo o esplendor Maya existente neste importante centro cultural, religioso e político, dos Mayas As suas palavras são como um mantra que cai sobre mim. A sua sonoridade leva-me para dentro do Popol Vuh, o livro sagrado da comunidade Maya. Pareço entrar numa dimensão paralela igual ao cenário do filme de Mel Gibson, Apocalypto. Imponência é a palavra certa para catalogar os deuses Mayas. Em transe observo a luz e a claridade da divindade Maya, B’alam K’Itzé’ a atravessar o que resta do Templo dos Guerreiros. Ao meu nariz chegam os aromas ocultos do pó da terra, do deus B´Alam Aq´Ab´, que se elevam no ar no recinto do Jogo da Pelota também conhecido pelo recinto do Jogo dos Guerreiros. Parece que oiço I’Ki’ Bálam deixar fluir a chuva no Templo do deus Chaac Mool, sentado no Trono do Jaguar. Com toda a subtileza a minha alma toca toda a energia gerada por Majukutaj observando solstícios no Observatório astrológico Maya de El Caracol assim apelidado pelos Conquistadores espanhóis devido á sua forma geométrica. Por fim saboreio a liturgia tolteca na grande pirâmide de Kukulcán, o deus da serpente emplumada para uns, e o deus da água para outros. B´alam, o Jaguar, com o seu porte altivo, passeia nos seus degraus quando chega um espetacular jogo de espectros de luzes e sombras devido ao Equinócio Solar. Hipnotizado assisto á Serpente Emplumada a descer vagarosamente pelos nove níveis dos degraus da pirâmide de Kukulcán. Inigualável a faculdade Maya de juntar Arquitetura á Astronomia. Só ao alcance de um povo que introduziu o conceito do zero na Matemática. Saio deste mantra ao som do bater das palmas da mão do nosso guia. Fenómeno acústico, este som, ecoa, por toda a Chichen Itzá, imitando na perfeição o grasnar de uma ave. Diz o meu guia que este era o som da ave Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada do panteão dos deuses Mayas, antes de ser extinta. Diz ele que ao Mundo Antigo sucedeu-se o Mundo Novo implantado por Portugal e Espanha. Com isso veio por arrasto a queda do Império Maya. A extinção desta ave foi só um dos danos colaterais de Conquistadores e Descobridores. Olho o porte altivo do guia e a descendência Maya está lá. Avisa-nos para seguirmos caminho. Kukulcán cavalga nos céus. Termino não sem antes recordar as palavras de Ibn Battuta,( 1304 DC.-1377 D.C.) viajante e explorador berbere:

“Quando começamos a viajar primeiro ficamos sem palavras. Depois tornamos-nos contadores de histórias.”

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