2013 U.S.A.

2013-09-10, Newark Liberty International Airport, Newark, U.S.A.

 

“Perder o meu passaporte era a menor das minhas preocupações. Mas perder o meu caderno de viagens, era uma catástrofe”
(Bruce Chatwin, inglês, escritor de viagens, 1940-1989).

10 De Setembro de 2013, 16h00, Newark Liberty International Airport, Newark, no estado de New Jersey, Estados Unidos da América do Norte. A minha primeira passagem pelo Estados Unidos da América do Norte não podia começar da melhor maneira: numa esquadra da polícia. Eu conto. Foi assim.

…you have a similar name…

Foto nº 0288, manhã de 11 de Setembro de 2013, Statue of Liberty, em Liberty Island, New York, NY_USA.

Foto nº 0288, manhã de 11 de Setembro de 2013, Statue of Liberty, em Liberty Island, New York, NY_USA.

Foi ao som destas palavras, dengosamente pronunciadas por um roliço polícia latino-americano, na Alfândega dos Costumes no aeroporto de Newark, que verdadeiramente iniciei a minha passagem pela América do Norte, nomeadamente na esquadra da polícia do aeroporto. Mal aterrámos, cerca das 15h20m locais, e depois de devidamente recolhidas as bagagens, foi tempo de passar pela Alfândega e Controlo de Passaportes. Policia, FBI e Homeland Security por todo o lado fazendo parecer o yankee Halloween uma festa de meninos traquinas. Sim, amigos. Hoje é dia 10. Amanhã dia 11. De Setembro. Pois. Depois de casa roubada, trancas na porta. Assim sendo chegámos aos states num dia de vigilância reforçada, (metam reforçada nisso), e tolerância zero. Tudo começou quando um moçoilo afro-americano, mais parecendo um verdadeiro “armário” se aproximou de nós atirando-nos de chofre um “follow me, please”. Vagarosamente lá nos encaminhou, por meio de uma enorme e serpenteante fila, até ao Controlo de Passaportes. Visto obtido previamente, documento de residência preenchido, passaporte em dia, sorriso q.b. e um “yes of course,sir”, e lá nos aproximamos de um envidraçado á prova de bala para o dito controlo dos passaportes afim de entramos nos states. Primeiro a entrar: a Andreia. Dados biométricos certinhos. Todo em dia. Lá explicou ao senhor polícia o quer vinha fazer em terras do Tio Sam, passo em frente e já está. Dentro dos states. Depois a Ana Maria. Mesmo procedimento. Mas com cara mais séria, a Ana, e pimba, dentro dos states. Por fim, eu, e aí a coisa já não foi lá com um simples sorriso. Não, senhor. O polícia “leu” o passaporte sei lá quantas vezes. Fez-me uma carrada de perguntas, em inglês e espanhol, porque tanto eu como ele hablabamos o idioma de Cervantes e, por fim, com um ar sério disse:

– Sir, you have to follow me to another superior officer. And you know why? You have a similar name whit another guy. (- Senhor, você tem que me seguir para um outro oficial superior. E você sabe por quê? Você tem um nome parecido com outra pessoa.)

– Sorry sir, but what do you mean “you have a similar name whit another guy”? – Disse eu já a não achar piada nenhuma á situação. Sim claro, adivinharam: havia outra pessoa com o mesmo nome que o meu. Pelo menos nos states. E, em caso de dúvida, não há dúvida: pildra com o zé Alberto. E a dançar entre a esperança e o desespero claro que tive de acompanhar o senhor policia até á esquadra do aeroporto. Claro que a Ana e a Andreia á parte já estavam na galhofa com a situação.

– Ó mãe, vamos ficar livres do pai. Ele vais de “férias” para Guantánamo, em Cuba, e nós ficamos em New York. Yes! Yeah! – Dizia a Andreia sorrindo em bom português.

Entrados na esquadra e primeira coisa que me lembro: Hill Street Blues, a Balada de New York, a série televisiva dos anos 80 da NBC e vá-se lá saber porquê…

A primeira coisa que vi foram aqueles balcões de esquadras de polícia norte americanas, com grandes globos brancos de luz, a dizer POLICE, onde cada polícia nos olha de alto para baixo, está tal e qual a série de televisão norte americana dos anos 80, Hill Street Blues. Sentei-me numa cadeira fria ao lado de ninguém. Olhando á minha volta vi um casal de chineses que aguardava, sentados num banco, instruções para se irem embora. Uma senhora mexicana, com um bebé de colo, tentando extinguir o choro da criança com meia dúzia de palavrões latinos. Um alemão, embriagado, ou pior, a escorregar pela cadeia abaixo. Duas a três crianças, a julgar serem menores, a olharem atentamente para os documentos que um policia lhes coloca nãos mãos. Depois choram. Em ritmos hipnóticos e cadenciados vários policias, com imaculadas e impecavelmente vincadas fardas azul navy, andam para trás e para a frente procurando não se sabe muito bem o quê. Imagino, lá ao fundo, num gabinete longe de tudo e de todos, o Capitão Frank Furillo (Daniel J. Travanti) beijando apaixonadamente a futura esposa a defensora pública Joyce Davenport (Verónica Hamel). O sargento Lucy Battes (Betty Thomas) no balcão maior berrando instruções para Joe Coffey (Ed Marinaro) sobre duas prostitutas que recentemente lhe fugiram da mão. De repente sou arrancado por um chamamento “loude and clear”:

– Siuba dus Xantoss (Silva dos Santos)?

Foto nº 1117, Manhã de 13 de Setembro de 2013, Times Square, Manhattan, New York, NY_USA.

Foto nº 1117, Manhã de 13 de Setembro de 2013, Times Square, Manhattan, New York, NY_USA.

Levanto-me rápida e celeremente da minha cadeira de sumo o pau imaginando um Mick Belker (Bruce Weitz), vestido de detective disfarçado, gorro enfiado pela cabeça, palito na boca, pronto para me dar uma mordedela, mas não.

– It´s me. – Digo eu para uma jovem polícia que me estende o passaporte dizendo:

– Sure? – Diz ela, parecendo danada para a brincadeira e sorrindo para mim. 

Sorrio. Ela sorri. Entrega-me o passaporte e o visto de residência e faço-me à vida antes que a vida se faça a mim. Anoto tudo no diário da viagem e, em momentos como este, dou comigo a pensar na vida. Saio de mansinho parecendo ainda ouvir o Sargento Phil Esterhaus dizer-me a sua famosa frase:

– Let´s be careful out there! (Vamos a ter cuidado lá fora!)

Na minha vida, tento sempre encontrar um princípio, um meio e um fim para toda e qualquer boa história. Li algures, não me lembro bem aonde, que pensar na nossa vida faz o nosso cérebro libertar cortisol e oxitocina. A libertação de tais químicos no cérebro dá-nos a capacidade humana única de nos ligar a algo ou a alguém, mesmo a um desconhecido, e sentir-mos empatia por ele. Quero com isso dizer que as histórias são aquilo que usamos para dar sentido às nossas vidas. Imaginem, por momentos, que vivíamos sem compreender que a nossa história algum dia terá de acabar. Como se as nossas vidas fossem infinitas como o Universo. O que seria então a nossa história? Ainda amaríamos? Seria que momentos pequenos e fugazes como este, que significam tudo, teriam ainda algum significado? Pelo menos à primeira vista estas minhas palavras podem parecer simples rabiscos, pensamentos errantes, o que se quiser. Mas se prestarem melhor atenção hão-de reparar que elas fazem referência a dias, locais, pessoas, cheiros, sabores, reflexões e, mais do que tudo isso: as minhas memórias. Ou as memórias da minha vida, já de si enriquecida com a Ana e a Andreia. Porque as nossas memórias, ou se quiserem, as nossas recordações, serão a nossa única bagagem de mão que nos acompanhará no derradeiro check-in da nossa vida. Por vida leia-se viagem. O Mundo mudou-me.

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